Vestígios de cocaína em rios e lagos alteram comportamento de salmões, aponta pesquisa
Salmões jovens do Atlântico expostos a concentrações realistas de cocaína percorreram distâncias significativamente maiores do que aqueles não expostos à droga. A descoberta é de uma pesquisa conduzida pela Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, cujos resultados foram repercutidos pelo jornal britânico The Guardian.
Como o experimento foi conduzido
Para investigar os efeitos da poluição por cocaína sobre peixes em condições próximas às naturais, o pesquisador Jack Brand e seus colegas trabalharam com três grupos de salmão do Atlântico criados em cativeiro. O primeiro grupo recebeu implantes que liberavam lentamente doses ambientalmente realistas da droga. O segundo foi exposto ao principal metabólito da substância, a benzoilecgonina. Já o terceiro não recebeu nenhuma droga, funcionando como grupo de controle.
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Metabólitos são pequenas moléculas produzidas, consumidas ou transformadas durante o metabolismo e representam as formas mais comuns da cocaína detectadas na natureza.
Resultados no Lago Vattern
Os salmões foram soltos no Lago Vattern, corpo d’água com quase 2 mil quilômetros quadrados. Ao longo do experimento, todos os peixes tenderam a se tornar menos ativos e mais sedentários numa parte específica do lago. Entretanto, ao final do estudo, os animais expostos à droga e ao seu metabólito apresentaram atividade consideravelmente maior.
Os salmões que receberam cocaína nadaram 5 km a mais do que os do grupo de controle. Já aqueles expostos à benzoilecgonina percorreram quase 14 km adicionais — duas vezes mais longe.
“Foi realmente o metabólito, que sabemos que ocorre em concentrações mais altas na natureza, que teve o efeito muito mais profundo sobre o comportamento e o movimento dos peixes”, disse Brand. “Isso sugere que, se estamos fazendo avaliações de risco e não incluindo compostos como esses metabólitos e derivados, podemos estar perdendo uma grande parte do risco ambiental a que estamos expondo esses animais.”
Impactos potenciais sobre a biodiversidade
Os pesquisadores identificaram que os peixes nadaram mais e se dispersaram mais amplamente, o que pode interferir diretamente em para onde vão, o que consomem e quão vulneráveis ficam diante de predadores. O pesquisador Jack Brand pondera que os salmões podem estar passando muito mais tempo expostos no meio da água por estarem sob efeito dos vestígios da substância, embora as consequências concretas desse impacto ainda permaneçam incertas.
Drogas e medicamentos já afetam a vida aquática
A contaminação de corpos d’água por medicamentos e drogas ilícitas já vem sendo documentada por outros estudos. Segundo o The Guardian, relatos de uma truta “viciada” em metanfetamina ampliaram o alerta à indústria farmacêutica para que desenvolva medicamentos mais ecológicos, capazes de se desfazer no meio ambiente. No caso dessa truta, o animal teria perdido o medo de predadores em decorrência da contaminação com antidepressivos.
Em 2019, testes realizados em camarões de água doce de rios em Suffolk, na Inglaterra, detectaram vestígios de dezenas de substâncias diferentes — incluindo cocaína, metanfetamina, antidepressivos, ansiolíticos e antipsicóticos. Na época, porém, os pesquisadores não chegaram a conclusões sobre o potencial de dano dessas substâncias.