O recado de Rubio e o que ele revela sobre a nova política externa de Trump
Quando um secretário de Estado americano sobe ao palanque para dizer que não tolerará mais ditaduras marxistas no hemisfério ocidental, há duas leituras possíveis. Uma é a do discurso. A outra é a da prática. E entre as duas costuma caber um oceano de conveniência geopolítica.
Marco Rubio foi direto: a administração Trump não aceitará que regimes de inspiração chavista, cubana e madurista continuem operando como exportadores de instabilidade na América Latina. A declaração mira nominalmente governos como os de Maduro na Venezuela, Ortega na Nicarágua e o regime cubano — os suspeitos habituais.
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O diagnóstico, em si, não é polêmico. Esses regimes são, de fato, fracassos econômicos e humanitários documentados. Geraram ondas migratórias colossais, reprimiram opositores, destruíram instituições e transformaram suas economias em ruínas. Dizer isso não é ideologia — é constatação.
Mas há um detalhe.
A promessa de confrontar ditaduras que exportam miséria e repressão carrega um histórico que o hemisfério conhece bem. Os EUA já prometeram isso antes. Várias vezes. E o resultado nem sempre foi a democracia florescendo. Foi, em muitos casos, a substituição de um autoritarismo por outro — desde que o novo fosse alinhado a Washington.
A pergunta que ninguém faz é simples: o critério é a democracia ou o alinhamento?
Rubio acusa — com razão — anos de acomodação e engajamento que fortaleceram adversários como Maduro e Ortega. É uma crítica legítima. Governos anteriores, democratas em especial, apostaram em diplomacia branda que produziu poucos resultados concretos para os povos oprimidos desses países. O regime venezuelano seguiu de pé. O cubano, inabalável. O nicaraguense, cada vez mais repressivo.
E é aí que a história complica.
Porque a mesma administração que promete dureza contra ditaduras de esquerda na América Latina demonstra notável flexibilidade quando o autoritarismo veste outra camisa. Arábia Saudita, Hungria, Turquia — regimes com credenciais democráticas no mínimo questionáveis recebem tratamento radicalmente diferente. O critério, aparentemente, não é a liberdade. É a utilidade.
Agora compare: se o problema são regimes que geram narcotráfico, migração em massa e instabilidade regional, por que a resposta americana historicamente se concentra no discurso e nas sanções seletivas, mas raramente enfrenta as engrenagens econômicas que mantêm esses regimes funcionando?
A declaração de Rubio tem mérito ao nomear o problema. O chamado socialismo do século XXI produziu catástrofes verificáveis. Venezuela, Cuba e Nicarágua são laboratórios de fracasso, e qualquer tentativa de romantizar esses regimes esbarra na realidade de milhões de refugiados.
Mas discurso não é política externa. É retórica.
O verdadeiro teste da administração Trump não será o que Rubio diz em coletivas de imprensa. Será o que acontece quando a dureza prometida exigir custos reais — diplomáticos, econômicos e militares. Será a disposição de aplicar o mesmo padrão a aliados incômodos. Será a coerência.
E coerência, no jogo geopolítico americano, é a mercadoria mais rara que existe.
Os povos latino-americanos que sofrem sob ditaduras marxistas merecem mais do que discursos inflamados em Washington. Merecem ações consistentes e, acima de tudo, uma política externa que não troque um autoritarismo por outro conforme o vento da conveniência. Se Rubio quer que o recado seja levado a sério, terá que provar que a régua é a mesma para todos. Até agora, a história sugere cautela.