Membros do MPF criticam proximidade do procurador-geral com Daniel Vorcaro e questionam sua independência para atuar na crise
A revelação de mensagens envolvendo o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em um relatório da Polícia Federal provocou uma onda de desconforto entre integrantes do Ministério Público Federal. Nas últimas 48 horas, as palavras mais repetidas na categoria foram constrangimento e perplexidade, segundo relatos colhidos pela CNN.
Mensagens revelam intimidade entre entorno de Gonet e o banqueiro Vorcaro
O documento da Polícia Federal trata da relação entre o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, ex-dono do banco Master. No entanto, Gonet surgiu no relatório por meio de mensagens trocadas entre o advogado de Vorcaro, Ciro Passos, e o próprio banqueiro.
Receba no WhatsApp as principais notícias do dia em primeira mão
As comunicações sugerem um grau de proximidade considerável entre Ciro Passos e o procurador-geral. Entre os elementos citados estão passagens aéreas internacionais destinadas ao filho de Gonet, combinações para fumar charuto e tomar whisky Macallan, além do envio de uma foto de Ciro ao lado de Gonet para Vorcaro.
Silêncio nos grupos internos, mas críticas fora deles
Segundo a CNN, nos grupos internos do MPF prevalece o silêncio. A razão, conforme procuradores, seria uma medida baixada pela gestão Gonet neste ano — revelada anteriormente pela CNN — que teria levado ao silenciamento da categoria. Fora desses canais, porém, as manifestações de incômodo são evidentes.
A crítica parte do grau de intimidade sugerido pelas mensagens entre Gonet e Vorcaro, mediada pelo advogado Ciro Passos. Integrantes do MPF identificam Ciro como um conhecido lobista que frequenta diversos eventos nos quais o procurador-geral também está presente.
Independência comprometida, avaliam procuradores
A avaliação predominante é de que, mesmo concedendo a Gonet o benefício da dúvida — já que, na época das mensagens, o caso do banco Master ainda não havia eclodido —, a proximidade configurou um erro grave. Para os procuradores, o episódio compromete o princípio basilar da carreira: a independência.
Outro ponto duramente criticado foi a velocidade com que Gonet agiu para contestar o relatório da Polícia Federal que expôs tanto Moraes quanto ele próprio. O procurador-geral pediu o arquivamento do caso em poucas horas, embora dispusesse de um prazo de cinco dias para se manifestar. De forma semelhante, solicitou rapidamente o arquivamento de denúncias feitas por Vorcaro em depoimento ao ministro do Supremo Tribunal Federal.
Movimento por lista tríplice ganha força entre procuradores
O episódio reacendeu entre procuradores influentes uma articulação, ainda em estágio inicial, para que o próximo presidente da República escolha o futuro procurador-geral da República a partir de uma lista tríplice elaborada pela própria categoria.
Esse formato, embora nunca tenha sido institucionalizado por lei, vigorou até 2019. Naquele ano, Jair Bolsonaro rompeu a tradição ao escolher Augusto Aras para o cargo e depois reconduzí-lo. Lula seguiu o mesmo caminho em 2023, indicando Paulo Gonet e posteriormente renovando seu mandato.
Nos dois casos, as escolhas foram costuradas por acordos que envolveram o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Para procuradores, esse modelo compromete diretamente a função constitucional do PGR: a independência para investigar.
Alinhamento com ministros do STF dificulta atuação independente
Gonet já é percebido na categoria como muito alinhado aos ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes. Isso o torna, na visão de procuradores, sem capacidade de agir com autonomia na crise atual.
Integrantes do MPF recordam que o próprio processo político de escolha de Gonet passou pelos dois ministros, uma vez que ambos foram consultados pelo presidente Lula sobre o nome do indicado. No cenário que se desenha, avaliam os procuradores, torna-se extremamente difícil que Gonet venha a abrir eventualmente uma investigação contra Moraes.
Próximos passos: PEC para constitucionalizar a lista tríplice
A estratégia no MPF agora é aguardar que o processo decante. Contudo, já nas próximas semanas, a intenção é retomar a defesa de que a lista tríplice da categoria seja respeitada pelo próximo presidente da República. O plano inclui buscar a aprovação de uma PEC no Congresso para constitucionalizar o mecanismo. Gonet permanece no cargo até dezembro de 2027.
A CNN procurou Gonet por meio de sua assessoria, mas ele não se manifestou. O procurador-geral também não divulgou publicamente qualquer nota sobre sua relação com Vorcaro e com o advogado Ciro Passos.