Marcelo Rocha Monteiro aponta que medidas contra facções chegam a seis meses das eleições e não passam de ações cosméticas
Pesquisas recentes colocam a segurança pública no topo das preocupações dos brasileiros em 2026, à frente de temas como saúde e economia. Foi nesse contexto que o governo federal decidiu apresentar um conjunto de ações contra as facções criminosas — mas, para quem atua na linha de frente do combate ao crime no Rio de Janeiro, o movimento não convence.
O procurador de Justiça Marcelo Rocha Monteiro, com extensa trajetória de enfrentamento ao crime organizado fluminense, descreveu o pacote como “tardio e superficial”. Na avaliação dele, a iniciativa do Palácio do Planalto se resume a um decreto e algumas portarias, sem qualquer lei nova, sem recursos extraordinários e sem articulação real com os governos estaduais.
Receba no WhatsApp as principais notícias do dia em primeira mão
Críticas ao conteúdo e ao momento do anúncio
“Não há lei nova, não há recursos extraordinários, não há coordenação efetiva com os Estados. É um decreto e algumas portarias que, na prática, não alteram a realidade do domínio territorial exercido por organizações como PCC e Comando Vermelho”, avaliou Monteiro em entrevista à TV BandNews.
O procurador já havia chamado atenção para a omissão do governo federal diante do avanço das facções e não hesitou em apontar o que considera motivação política por trás da medida. “Depois de mais de 20 anos de exercício do poder pelo PT, o governo resolve agir agora, quando as pesquisas mostram que a segurança pública é a maior preocupação dos brasileiros. Isso não é política de Estado. É oportunismo eleitoral“, afirmou.
Para Monteiro, o pacote de segurança funciona mais como peça de comunicação do que como estratégia real. As ações, segundo ele, servem para produzir imagens e discursos, mas não enfrentam o problema de forma estrutural.
PT e o histórico de “passar pano” para criminosos
Em tom incisivo, Marcelo Rocha Monteiro resgatou o que classifica como um padrão construído ao longo de duas décadas pelo PT. “O partido sempre priorizou o discurso de direitos humanos para os criminosos em detrimento da segurança da população. Agora, às vésperas da eleição, tenta reverter essa imagem com medidas cosméticas”, disse.
O argumento do procurador também questiona a sinceridade da preocupação governamental. “Se a preocupação fosse genuína, essas ações teriam sido tomadas anos atrás, quando as facções já dominavam comunidades inteiras e expandiam seu poder para o Centro-Oeste, Norte e Nordeste”, argumentou.
Propostas mais duras e reação política
Monteiro voltou a defender medidas mais severas contra o crime organizado. Entre suas propostas estão o enquadramento das facções como organizações terroristas e o endurecimento da legislação voltada a líderes e financiadores dessas redes criminosas.
“O Estado precisa recuperar o território perdido. Decreto e portaria não resolvem isso. O que resolve é vontade política real, e não de ocasião”, concluiu.
Repercussão entre especialistas e opositores
A entrevista do procurador ganhou repercussão imediata entre especialistas em segurança pública e adversários do governo. Enquanto o Planalto sustenta que o pacote representa mais um avanço no combate ao crime, as críticas de Monteiro alimentam o debate sobre o caráter eleitoreiro da iniciativa e a credibilidade de um governo que, durante boa parte de sua trajetória, foi acusado de contemporizar com as facções.