Departamento de Estado classifica facções brasileiras como organizações terroristas e amplia arsenal de sanções contra integrantes
O governo de Lula reagiu com dureza à decisão de Washington de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. Em discurso durante evento em Sergipe, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou abertamente a medida. “Não aceitamos ser tratados como moleques. Não aceitamos ser tratados como se fôssemos uma republiqueta”, afirmou Lula.
O Planalto também se pronunciou por meio de nota oficial, classificando o Brasil como uma “nação soberana” que “não aceitará o uso de medidas arbitrárias vindas do estrangeiro como pretexto para atacar” a soberania e a economia brasileiras. O texto foi além e mirou diretamente figuras políticas internas: “A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros”, sustenta a nota.
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Presença das facções em território americano
Na sexta-feira (29), a porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Amanda Roberson, revelou que o PCC e o CV foram identificados em 12 estados americanos. Ela não especificou, porém, quais localidades o FBI e outras agências governamentais detectaram a atuação dessas organizações.
“Sabemos que estes dois grupos, o PCC e o CV, estão atuando dentro do Brasil, mas também em outros países. Inclusive identificamos suas atividades em 12 estados aqui nos Estados Unidos”, afirmou à Folha de S.Paulo.
De acordo com Roberson, as facções brasileiras mantêm operações nos Estados Unidos envolvendo tráfico de drogas, tráfico de pessoas, contrabando e movimentação de recursos financeiros ilícitos. “Eles manejam fluxos e redes financeiras ilícitas. Apresentam uma ameaça não só para a segurança dentro do Brasil, mas também em outros países”, disse à Folha.
Classificação como terroristas e suas consequências
O anúncio oficial da classificação foi feito na quinta-feira (28) pelo Departamento de Estado, apenas dois dias após a visita do senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro ao presidente americano Donald Trump.
Com a nova designação, amplia-se significativamente o leque de instrumentos à disposição dos Estados Unidos para agir contra grupos e indivíduos supostamente ou comprovadamente ligados às duas facções. Entre as medidas possíveis estão bloqueio de bens, restrições a transações financeiras e cancelamento de vistos. A classificação também libera recursos de inteligência e militares americanos para o enfrentamento dessas organizações.
Riscos à soberania e à cooperação policial
Especialistas expressaram temores de que a medida possa afetar a soberania brasileira e prejudicar a cooperação internacional entre polícias no combate ao crime organizado. A principal preocupação é que investigações envolvendo PCC e CV migrem para a esfera militar e para o escopo da CIA, com níveis de sigilo mais elevados.
Posição oficial de Washington
Amanda Roberson explicou à Folha de S.Paulo que a decisão foi tomada com base em avaliações de segurança nacional e integra a estratégia da administração Trump de utilizar “todas as ferramentas disponíveis” para proteger o território americano. Ela frisou que a classificação não prevê qualquer tipo de intervenção militar.
Questionada sobre eventual interferência nas eleições brasileiras, Roberson negou essa possibilidade tanto em entrevista à Folha quanto à Globo, afirmando que “o presidente do Brasil é decisão dos brasileiros”.