Homenagear os mortos da pandemia é nobre. Desperdiçar bilhões em vacinas enquanto se faz isso é cinismo institucional.
Existe um tipo de contradição que o poder adora cultivar: a contradição solene. Aquela que se veste de luto, sobe ao palanque e discursa com voz embargada — enquanto, nos bastidores, os números contam uma história bem diferente.
Nesta segunda-feira (11), o presidente Lula sancionou a lei que institui o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19. A data escolhida é 12 de março, quando se registrou a primeira morte pela doença no Brasil. Na cerimônia no Planalto, houve homenagem aos mais de 700 mil mortos e, como já virou rotina, a culpa foi endereçada ao governo Bolsonaro pela condução da pandemia.
Receba no WhatsApp as principais notícias do dia em primeira mão
Até aqui, nenhuma surpresa.
Mas há um detalhe.
Enquanto o governo performava indignação contra a gestão anterior, uma auditoria do Tribunal de Contas da União revelava o que acontece sob a gestão atual: R$ 260 milhões em doses de Coronavac vencidas no estoque. Das cerca de 10 milhões de doses compradas do Instituto Butantan, quase 8 milhões — 80% — foram para o lixo. Apenas 260 mil foram efetivamente aplicadas. O contrato total era de R$ 330 milhões.
Leia de novo: oito em cada dez doses compradas com dinheiro público foram descartadas sem uso.
O TCU não deixou margem para interpretações generosas. Segundo a auditoria, o Ministério da Saúde levou cerca de sete meses para finalizar a contratação. Aceitou lotes com validade curta. Não teve planejamento logístico. A conclusão do tribunal é direta: a lentidão do próprio governo foi a “principal causa” do desperdício.
E qual foi a resposta do Ministério da Saúde? Culpou a baixa demanda pela Coronavac, as recomendações da OMS por vacinas atualizadas e — pasmem — uma suposta “herança” de estoques do governo anterior.
Percebem o padrão? Quando se trata de responsabilidade, é sempre culpa de quem veio antes. Quando se trata de mérito, é sempre obra de quem está no poder.
O desperdício não é acidente — é sistema
E é aí que a história complica. O caso da Coronavac não é um episódio isolado.
Em 2025, o Ministério da Saúde incinerou mais de R$ 108 milhões em vacinas, medicamentos e insumos básicos — parte deles ainda dentro da validade. Em três anos de governo Lula, o volume total de descartes na saúde chegou a R$ 2 bilhões, valor significativamente superior ao registrado em mandatos anteriores.
Dois bilhões de reais. Em vacinas jogadas fora. Em medicamentos incinerados. Em insumos que nunca chegaram a quem precisava.
Agora compare: o governo que sobe ao palco para chorar os mortos da pandemia é o mesmo que deixa vacinas apodrecerem em depósitos por pura incompetência logística. O governo que aponta o dedo para o passado é o mesmo que não consegue gerir o próprio estoque de imunizantes no presente.
Auditorias da Controladoria-Geral da União também identificaram distorções bilionárias nas contas do Ministério da Saúde, falhas no monitoramento de estoques e problemas graves nos programas de imunização — incluindo baixa cobertura vacinal e demora na aquisição de doses contra a dengue em plena explosão de casos em 2024.
A pergunta que ninguém faz é simples: como um governo que se apresenta como defensor da ciência e da saúde pública consegue desperdiçar mais vacinas do que aquele que ele próprio acusa de negligência?
A cerimônia como cortina de fumaça
Não é coincidência que a solenidade aconteça exatamente quando os números da auditoria vêm a público. Governos experientes sabem que a melhor defesa contra um escândalo de gestão é uma cerimônia de emoção. Lágrimas no palanque distraem dos zeros nos relatórios do TCU.
A oposição classificou o evento como “hipocrisia”. O termo pode parecer forte, mas é difícil encontrar outro quando se vê um presidente homenageando vítimas de uma pandemia enquanto seu próprio ministério descarta bilhões em recursos que poderiam ter salvo vidas.
O TCU continua cobrando explicações de ex-gestores do Departamento de Logística em Saúde. Até o momento, nem o Palácio do Planalto nem o Ministério da Saúde se manifestaram sobre a coincidência constrangedora entre o ato solene e as conclusões da auditoria.
Honrar a memória de 700 mil mortos é um dever moral do Estado brasileiro. Ninguém de boa-fé questiona isso. Mas honrar a memória dos mortos exige, antes de tudo, não repetir as falhas que os mataram. Exige competência na gestão. Exige que vacinas compradas com dinheiro do contribuinte cheguem a braços — e não a incineradores.
Quando o luto vira palanque e a homenagem vira escudo contra a prestação de contas, o que se tem não é memória. É instrumentalização. E isso, sim, é uma ofensa aos mortos que o governo diz honrar.
Análise IMPECÁVEL. PARABÉNS