Opinião

Lula fabrica narrativa eleitoral para justificar tarifaço dos EUA e culpar família Bolsonaro

Lula atribui sanções comerciais dos EUA à família Bolsonaro e sugere morte de opositores, transformando derrota diplomática em palanque eleitoral com desinformação deliberada

Sanções americanas decorrem de investigação comercial iniciada há quase um ano, mas presidente prefere transformar punição em palanque

Há uma regra não escrita na política brasileira que Lula domina como poucos: quando a realidade aperta, inventa-se um culpado. De preferência, um que já esteja no banco dos réus da opinião pública.

Foi exatamente o que aconteceu após os Estados Unidos anunciarem novas sanções tarifárias contra o Brasil por “práticas abusivas”. A decisão americana resulta de uma investigação conduzida no âmbito da seção 301 do USTR — o equivalente a um ministério do comércio americano — iniciada há quase um ano. Os resultados foram divulgados agora. Procedimento técnico, burocrático, previsível.

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Mas o presidente e seus marqueteiros decidiram que a verdade é um detalhe inconveniente.

Em vez de explicar ao país o que levou às sanções e apresentar uma estratégia clara de resposta, Lula subiu ao palanque e atribuiu a decisão americana a Flávio e Eduardo Bolsonaro — os “traidores”, nas palavras do presidente. Foi além: mencionou como destino desejável para ambos.

A pergunta que ninguém faz é simples: desde quando uma investigação comercial americana de quase um ano é culpa de dois senadores brasileiros?

A resposta é óbvia: não é. Mas a eleição está no horizonte, e na Praça dos Três Poderes só sobrou uma prioridade.

Discurso de ódio com endereço certo

Declarações de líderes políticos sugerindo a morte de adversários não são retórica inofensiva. São combustível.

Flávio Bolsonaro já usa colete à prova de bala nas ruas do Brasil. Foi aconselhado a reforçar sua segurança após as declarações presidenciais. E o histórico recente da América Latina não permite que ninguém finja surpresa caso algo aconteça.

Na Colômbia, o senador Miguel Uribe, forte candidato à presidência e opositor de Gustavo Petro — aliado de Lula —, foi assassinado a tiros em 2025. No Equador, o candidato de Fernando Villavicencio foi executado em 2023, logo após um comício. Daniel Noboa, que acabou eleito presidente equatoriano, teve seu carro metralhado por facções terroristas.

E no Brasil, em 2018, uma facada quase tirou a vida de Jair Bolsonaro.

Quando o presidente da República sugere publicamente a morte de opositores, ele não está fazendo figura de linguagem. Está plantando sementes. E a história mostra que essas sementes germinam.

O governo que ameaça e recua no mesmo dia

A nota oficial do governo brasileiro foi na linha dura: ameaçou retaliar os EUA, acenou com a Lei de Reciprocidade. Firme. Soberano. Altivo.

Durou algumas horas.

No mesmo dia, o vice-presidente Geraldo Alckmin correu às redes sociais para pregar o “diálogo”. O senador Nelsinho Trad, presidente da Comissão de Relações Exteriores, pediu que o Brasil “esgote os caminhos do diálogo” antes de qualquer escalada. Outros governistas no seguiram o mesmo roteiro.

Agora compare: o governo ameaça retaliação em nota oficial e, horas depois, seus próprios aliados desautorizam a ameaça publicamente. Qual é a estratégia? Alguém sabe? Ou a nota foi escrita para virar manchete e o recuo já estava programado?

Isso tem nome: teatro institucional.

O que os EUA realmente pensam do Brasil

Enquanto o governo brasileiro se ocupa em fabricar narrativas eleitorais, os Estados Unidos seguem catalogando as fragilidades brasileiras com frieza cirúrgica.

Há um ano, o governo americano atualizou a recomendação de viagens para seus cidadãos no Brasil, incluindo risco de sequestro no aviso oficial. Até hoje, a recomendação permanece.

A canetada do ministro Dias Toffoli no STF, que anulou provas contra a Odebrecht — corrupta confessa —, foi citada pelos EUA como evidência da fragilidade brasileira no combate à corrupção.

Enquanto isso, o impacto concreto do tarifaço já se desenha: estimativas da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul apontam que as perdas nas exportações gaúchas podem chegar a US$ 334 milhões. A sobretaxa de 25% afetaria 81% das vendas do estado aos americanos.

Como resumiu o deputado Luiz Philippe Orleans e Bragança, o tarifaço é “duplamente prejudicial” aos brasileiros, que além da taxa já são penalizados pela gestão econômica do governo atual.

O silencioso contra os aposentados

E há um detalhe que passa despercebido no meio do barulho. Aposentados do INSS têm até 20 de junho para contestar descontos associativos fraudulentos em seus benefícios. O governo Lula obriga que a própria vítima conteste o roubo para receber seu de volta.

Leia de novo: quem foi roubado precisa provar que foi roubado para parar de ser roubado. E o prazo é curto.

Mas isso não dá palanque.

Flávio Bolsonaro disse uma frase que, independentemente de onde se situe o leitor no espectro político, merece reflexão: “Essa tarifa é do Lula.” Pode-se discordar da simplificação. Mas a investigação americana que resultou nas sanções foi conduzida durante o governo Lula, sobre práticas comerciais do Brasil sob o governo Lula. Atribuí-la à família Bolsonaro não é só desonesto — é desinformação deliberada com fins eleitorais.

E é exatamente o que está acontecendo.

Quando um presidente transforma uma derrota diplomática em munição eleitoral e sugere a morte de adversários em praça pública, o problema não é mais a tarifa americana. O problema é o que estamos dispostos a aceitar em nome de uma narrativa.


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