Mariana Francisco Ferreira ficou internada por mais de 28 horas antes que o ginecologista responsável autorizasse intervenção cirúrgica no Hospital Mogi-Mater
Dois episódios de parada cardiorrespiratória marcaram as últimas horas de vida da juíza Mariana Francisco Ferreira, de 33 anos, que faleceu no Hospital e Maternidade Mogi-Mater, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Durante a cirurgia realizada para tentar salvá-la, o ovário e a trompa esquerdos foram retirados, e uma ooforoplastia (reconstrução dos ovários) foi feita no ovário e trompa direitos. O cirurgião responsável relatou que “havia muito sangue na cavidade abdominal”.
Procedimento de coleta e agravamento do quadro
Na manhã do dia 4 de maio, Mariana passou pela coleta de óvulos na Clínica Invitro Reprodução Assistida. Segundo o boletim de ocorrência, a magistrada foi liberada e retornou para casa. Pouco tempo depois, sentiu dores intensas, voltou à clínica e acabou encaminhada ao hospital com um quadro de hemorragia aguda.
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Ao longo de toda a internação, o estado clínico de Mariana piorou progressivamente. Mesmo assim, o ginecologista Maurício Ligabô — responsável pelo procedimento de coleta — negou repetidas vezes a necessidade de cirurgia. Conforme a investigação policial, a autorização para a intervenção cirúrgica só veio cerca de 28 horas após a entrada da paciente no hospital.
Alertas ignorados pelas intensivistas
Duas médicas intensivistas que atenderam a juíza no hospital declararam em depoimento à Polícia Civil que alertaram inúmeras vezes sobre a urgência de uma cirurgia de emergência para salvar a vida da magistrada.
Já na manhã do dia 5 de maio, essas profissionais identificaram a presença de “líquido livre na cavidade uterina”, hipótese que sinalizava a existência de sangue na cavidade abdominal. Diante do alerta, Ligabô afirmou que a quantidade de líquido não era sangue, mas sim um resultado do “hiperstímulo causado pelas medicações ovulatórias”. “Mas essa condição é resolutiva e espontânea”, disse o ginecologista responsável pela coleta.
Relato sobre arrogância do ginecologista
A intensivista que acompanhava Mariana desde a manhã do dia 5 relatou que comunicou a Ligabô também sobre a “piora da função renal”. “A declarante demonstrou que caso a paciente precisasse de futura hemodiálise, que o hospital teria suporte para atende-la. Mesmo assim, Maurício (Ligabô) mostrou certa arrogância, dando as costas para a declarante”, diz um trecho do documento policial.
Ao avaliar a juíza em seguida, Ligabô “se deparou com alteração de sinais vitais, alteração clínica, sinais clínicos evidentes de gravidade (hipovolemia grave), mas manteve sua conduta de não intervir cirurgicamente, arrimando sua hipótese diagnóstica na ‘hiperestimulação ovariana'”.
Antes do encaminhamento de Mariana ao centro cirúrgico, a médica acionou uma nefrologista, acreditando que a paciente precisaria de hemodiálise no dia seguinte, já que não urinava desde a madrugada anterior.
Autorização para cirurgia veio após comprovação de sangue
Um terceiro médico, intensivista, declarou à Polícia Civil que a autorização para a cirurgia só aconteceu quando a equipe médica do hospital comprovou a presença de sangue na cavidade abdominal. O especialista detalhou que, naquele momento, “havia grande preocupação quanto à gravidade clínica da paciente, pois o aspecto geral era compatível com iminência de parada cardiorrespiratória”. A anestesiologista orientou que a intubação não fosse feita na UTI, mas diretamente no centro cirúrgico, para não atrasar a “transferência imediata” da paciente.
Estado gravíssimo no pós-operatório e óbito
Mariana retornou do centro cirúrgico por volta das 22h do dia 6 em estado gravíssimo. Apresentava pressão arterial e oxigenação baixas, frequência cardíaca elevada e continuava anúrica — ou seja, sem produzir urina. Contudo, “não havia condições hemodinâmica para hemodiálise, diante do risco de colapso circulatório, eis que havia suspeita de pouco sangue em circulação na paciente”.
Por volta das 3h50, a magistrada sofreu a primeira parada cardiorrespiratória. A equipe médica conseguiu reanimá-la após 30 minutos de manobras. Às 5h22, veio a segunda parada. Dessa vez, os médicos tentaram a reanimação por 40 minutos, sem sucesso. O óbito foi registrado às 6h03.
Posição da defesa de Maurício Ligabô
A defesa do ginecologista Maurício Ligabô sustentou que ele “não tem poder de impedir a decisão de nenhum médico”.
“Durante a internação da Mariana no hospital, Maurício lá permaneceu, junto à equipe médica, para prestar todo o auxílio necessário à superação clínica da paciente, o que também é confirmado pelos próprios médicos que a atenderam na unidade de tratamento intensivo”, afirmou a defesa.
“Cumpre registrar que a investigação ainda está em curso, ainda faltam laudos conclusivos, e por isso a defesa prefere aguardar para apresentar a sua posição definitiva. Entretanto, a defesa informa que tem muitos outros elementos que neste momento estão sendo ignorados, como o procedimento tomado pelo hospital, e que precisam ainda ser levados em conta e que serão apresentados oportunamente pela defesa”.
“Maurício não tem o poder de impedir quem quer que seja de realizar procedimentos de emergência. Esses depoimentos são por demais óbvios direcionados a proteger o hospital, e escondem a dinâmica real dos acontecimentos. Maurício não tem poder de impedir a decisão de nenhum médico, o que ele fez foi tentar contribuir com o diagnóstico, tanto que ele que ligou para vários médicos para irem até o hospital pois o corpo médico ali não estava dando conta da situação”.
“A defesa informa, por fim, que está colaborando com a apuração escorreita dos fatos, fornecendo toda a documentação e informações necessárias às autoridades”, concluiu.
Manifestação do hospital e da SSP
O Hospital e Maternidade Mogi-Mater informou que a paciente deu entrada com quadro de hemorragia aguda. “Diante da gravidade do caso, ela foi prontamente atendida pela equipe do pronto-socorro e encaminhada imediatamente para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI)”, declarou a instituição.
A rede hospitalar afirmou que, desde a admissão, todas as medidas médicas e assistenciais cabíveis foram adotadas de forma incansável pelas equipes multiprofissionais, com o objetivo de estabilizar o quadro clínico da paciente.
“Como ela não havia realizado nenhum procedimento anterior no hospital, o médico responsável pela clínica foi acionado para acompanhar o caso e assim o fez, incluindo no procedimento cirúrgico realizado na terça-feira, 5. Apesar de todos os esforços empregados pela equipe hospitalar, infelizmente ela veio a óbito no dia seguinte”, disse o hospital ao lamentar a morte.
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que a mãe da vítima compareceu à delegacia e confirmou que Mariana realizou uma coleta de óvulos para um tratamento de fertilização. Após o procedimento, a mulher voltou para sua residência e sentiu muita dor, retornando à Clínica Invitro Reprodução Assistida antes de ser encaminhada ao hospital. “Ela passou por um procedimento cirúrgico, mas não resistiu”, disse a secretaria.
O caso foi registrado como morte suspeita no 1° DP de Mogi das Cruzes, onde as diligências seguem em andamento para o esclarecimento dos fatos. O Estadão procurou a Clínica Invitro Reprodução Assistida e aguarda retorno.
Quem era a juíza Mariana Francisco Ferreira
Nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, Mariana Francisco Ferreira nutria desde a adolescência o sonho de se tornar juíza. Em dezembro de 2023, ingressou no Poder Judiciário do Rio Grande do Sul após aprovação em concurso público, sendo designada para a 1ª Vara Judicial da Comarca de Parobé. Exerceu também a magistratura na 1ª Vara Regional.