Políticos que foram presos e condenados na maior operação anticorrupção do país voltam às urnas como se nada tivesse acontecido
Um levantamento realizado pelo portal Poder360 expõe um retrato incômodo da política brasileira: nada menos que 75 políticos que figuraram como alvos da Operação Lava Jato estão registrados como candidatos nas eleições de 2026. Entre eles, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ficou 580 dias preso entre abril de 2018 e novembro de 2019.
Dos 75 nomes identificados pelo levantamento, nove chegaram a ser presos — com condenações definitivas ou não —, segundo a apuração baseada em inquéritos e registros de candidaturas disponíveis na Justiça Eleitoral. O dado escancara uma realidade que desafia qualquer noção de accountability: políticos investigados, denunciados e até encarcerados retornam à disputa eleitoral sem maiores obstáculos.
Receba no WhatsApp as principais notícias do dia em primeira mão
O caso mais emblemático: Lula e a anulação pelo STF
O presidente Lula havia sido condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá. A sentença, assinada pelo então juiz Sergio Moro, resultou na prisão do petista por quase dois anos. Em 2021, porém, o Supremo Tribunal Federal anulou a condenação em primeira instância sob o argumento de incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba. Posteriormente, a Justiça declarou os processos prescritos — um desfecho que, para muitos, simboliza a fragilidade do sistema de responsabilização penal no Brasil.
PT e PP encabeçam a lista de partidos com mais candidatos alvos da Lava Jato
O Partido dos Trabalhadores (PT) lidera com folga o ranking de legendas com candidatos que foram alvos da operação: são 22 nomes. O Progressistas (PP) vem em segundo, com 13 candidatos. Na sequência aparecem o MDB (9), o PSD (7) e o Republicanos (6). A distribuição entre diversas siglas demonstra que o problema da impunidade não é exclusividade de um único espectro ideológico, mas uma marca institucional da política partidária brasileira.
Nomes que passaram pela prisão e agora pedem voto
Entre os nove candidatos que chegaram a ser presos estão figuras notórias da cena política nacional:
- André Vargas (PT-PR)
- Beto Richa (PSDB-PR)
- Delcídio Amaral (PRD-MS)
- Delúbio Soares (PT-GO)
- Eduardo Cunha (Republicanos-MG)
- Luiz Argôlo (Republicanos-BA)
- Marconi Perillo (PSDB-GO)
- Zé Dirceu (PT-SP)
A maioria deles disputa vagas na Câmara dos Deputados ou no Senado, posições que conferem foro privilegiado e imunidades parlamentares — um detalhe que não passa despercebido diante do histórico de cada um.
Cargos disputados e patrimônio milionário
O mapeamento revela que os cargos mais visados pelos alvos da Lava Jato são: deputado federal (39 candidatos), senador (17), governador (8), deputado estadual (5), vice-presidente (3) e presidente (1).
Outro dado que chama atenção é o patrimônio declarado desses candidatos. Dos 75, nada menos que 54 declararam bens superiores a R$ 1 milhão. Desses, 15 informaram à Justiça Eleitoral possuir mais de R$ 10 milhões em patrimônio. Números que, no mínimo, suscitam questionamentos sobre a origem e a evolução patrimonial de figuras que estiveram no centro de investigações sobre desvios bilionários de recursos públicos.
Operação encerrada em 2024
A Operação Lava Jato, conduzida pela Polícia Federal, foi a maior investigação de combate à corrupção já realizada no Brasil. Encerrada em 2024, a operação deixou um legado controverso: de um lado, expôs esquemas monumentais de corrupção envolvendo empreiteiras e agentes públicos; de outro, viu parte significativa de seus resultados anulados por decisões judiciais que questionaram procedimentos e competências, sem que novas condenações fossem obtidas.
O fato de que dezenas de alvos daquela operação agora buscam novamente o voto popular — muitos com patrimônios milionários e ficha corrida — é um lembrete incômodo de que, no Brasil, o sistema político tem uma capacidade notável de absorver escândalos e reciclar seus protagonistas.