Opinião

Hang coloca o dedo na ferida das federais — e a resposta do governo só aumenta a suspeita

Luciano Hang critica militância ideológica nas universidades federais e governo responde com indignação performática em vez de dados concretos que refutem o diagnóstico

Empresário aponta ideologização nas federais e a resposta do governo confirma exatamente o que ele denuncia

Quando Luciano Hang afirma que as se transformaram em “guetos da esquerda”, a reação previsível se repete: indignação institucional, notas oficiais inflamadas e acusações de obscurantismo. O que não se repete é algo mais simples — e mais necessário: uma resposta com dados.

O dono da Havan voltou à carga no fim de maio. Diante de apoiadores e com ampla repercussão nas redes sociais, o empresário sustentou que as universidades federais deixaram de priorizar a formação técnica e passaram a funcionar como centros de reprodução ideológica. Associou o cenário ao desempenho econômico do Rio Grande do Sul, seu estado de origem. Não é novidade. Hang faz críticas semelhantes há anos.

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Mas há um detalhe que merece atenção.

A resposta veio exatamente de onde se esperava — e exatamente no tom que se esperava. A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, saiu em defesa das universidades federais. A presidente da União Nacional dos Estudantes, Bianca Borges, declarou que “as universidades públicas nunca foram um ‘gueto da esquerda'”.

Nunca?

A pergunta que ninguém faz é simples: se a militância política organizada não existe dentro das universidades públicas, por que a UNE — uma entidade historicamente vinculada a partidos de esquerda — é sempre a primeira a responder quando alguém questiona o ambiente acadêmico? A própria reação já é uma evidência do que se pretende negar.

Não se trata de dizer que universidades públicas não produzem conhecimento. Produzem, e de altíssimo nível. A científica brasileira depende delas. Isso é fato. Mas reconhecer a excelência acadêmica não exige fechar os olhos para a captura política de espaços que deveriam ser plurais.

E é aí que a história complica.

Quem já pisou em um campus de universidade federal sabe que a pluralidade de pensamento ali é, na melhor das hipóteses, uma ficção generosa. Centros acadêmicos controlados por correntes partidárias. Semanas acadêmicas com programação que mais parece congresso de partido. Professores que transformam sala de aula em palanque. Tudo isso é documentado, filmado, publicado — e sistematicamente ignorado por quem deveria fiscalizar.

Hang tem seus excessos, é verdade. Em 2020, foi condenado a pagar R$ 5 mil por ao então reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, por conta de uma publicação. A Justiça disse que ele passou do limite. Pode ser. Mas uma condenação por excesso retórico não invalida o diagnóstico de fundo.

Agora compare: quando um empresário critica a ideologização das universidades, é tratado como inimigo da educação. Quando movimentos estudantis interrompem aulas, ocupam reitorias e usam infraestrutura pública para ativismo partidário, são celebrados como expressão democrática. A seletividade é gritante.

O governo poderia ter respondido de outra forma. Poderia ter apresentado números: quantos formandos as federais colocam no mercado de trabalho? Qual a taxa de empregabilidade? Como se compara a formação técnica das federais com a de outros países? Poderia ter mostrado que a crítica de Hang é infundada com evidências concretas.

Não fez nada disso.

Preferiu o caminho mais fácil: a indignação performática. A defesa genérica. O discurso vazio de que “a universidade é um espaço de desenvolvimento nacional” — frase que não diz absolutamente nada e serve para qualquer situação.

A federais não é um segredo de Estado. É uma realidade visível, documentada e que qualquer aluno que não compactue com a cartilha dominante conhece na pele. O problema não é que ela exista — em uma democracia, todos têm direito a se organizar politicamente. O problema é quando ela se confunde com a própria instituição. Quando o financia estrutura para ativismo. Quando a pluralidade vira monólogo.

Luciano Hang não é acadêmico, não é intelectual e não pretende ser. Mas faz uma pergunta que incomoda: para quem, afinal, as universidades federais estão formando? Para o mercado, para a ciência, para o desenvolvimento do país — ou para engrossar fileiras partidárias?

Enquanto a resposta vier em forma de nota de repúdio, e não de dados, a pergunta continuará de pé.


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