Decano do Supremo saiu em defesa da Corte, criticou a cobertura da imprensa sobre o caso Banco Master e afirmou que autocrítica deve permanecer restrita ao ambiente interno
Durante entrevista à jornalista Renata Lo Prete, da Rede Globo, nesta quarta-feira, 22, o decano do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, fez uma comparação inusitada para rebater o que considera excesso de opiniões públicas sobre a atuação da Corte. O ministro equiparou o cenário atual ao velho clichê nacional sobre técnicos de futebol.
Faria Lima, não Praça dos Três Poderes
Na avaliação de Gilmar Mendes, a imprensa deslocou o debate sobre o caso do Banco Master do seu verdadeiro endereço. Para ele, o episódio expõe fragilidades regulatórias no sistema financeiro e não deveria ser tratado como uma questão de protagonismo do STF.
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“A imprensa trouxe o caso para a Praça dos Três Poderes. Se eu fosse buscar o endereço do caso, eu veria na Faria Lima”, declarou o ministro, referindo-se ao principal centro financeiro do país.
O magistrado sustentou que houve distorção na forma como o assunto chegou ao público. “A imprensa ou parte da imprensa transformou [o caso Master] num case do Supremo Tribunal Federal”, alegou. Segundo Gilmar, a controvérsia deveria ser analisada a partir de sua origem no mercado financeiro, e não pela atuação de ministros da Corte.
A ironia dos ‘200 milhões de juristas’
Ao reagir às interpretações públicas sobre impedimento e suspeição de ministros, Gilmar Mendes recorreu a uma provocação. O decano enxerga um ambiente de julgamento difuso, no qual a opinião pública se antecipa a conclusões jurídicas sem compreender a integralidade dos processos.
“No passado, a gente dizia que tínhamos 150 ou 180 milhões de técnicos de futebol. Agora nós temos 180 ou 200 milhões de juristas, todos palpitando sobre coisas do Supremo, sobre impedimento, suspeição”, comparou.
O ministro argumentou que a dinâmica interna do STF envolve milhares de processos e decisões que raramente são compreendidas em sua totalidade fora do tribunal.
Controvérsias envolvendo Toffoli e Moraes
Recentemente, vieram à tona informações que envolvem outros ministros da Corte com o Banco Master. Alexandre de Moraes viajou oito vezes em jatos executivos pertencentes a empresas controladas por Daniel Vorcaro, dono do finado Banco Master. Já Dias Toffoli admitiu ser sócio de empresa que negociou com fundo ligado ao Master.
Questionado se esses episódios demandariam uma revisão de conduta por parte dos ministros, Gilmar reconheceu a importância de avaliações críticas, mas fez questão de delimitar o espaço onde elas devem ocorrer.
“Autocrítica, como você bem coloca, é autocrítica. É crítica interna, inclusive”, afirmou.
Correções regimentais e reflexão institucional
De acordo com o decano, esse tipo de reflexão já faz parte da trajetória do tribunal e pode gerar mudanças concretas. “Nós devemos fazer esse tipo de avaliação, inclusive para fins de eventual correção de regimento”, disse, enfatizando o caráter institucional dessas revisões.
Gilmar Mendes, entretanto, encerrou se defendendo e provocando a própria imprensa a promover maior rigor em suas coberturas sobre o STF.