Saída de R$ 12,6 bilhões na semana de 10 a 14 de agosto é a maior desde a crise do subprime de 2008
A bolsa brasileira registrou a maior retirada semanal de capital estrangeiro em quase duas décadas. De acordo com dados do site Dados de Mercado, consultados por VEJA Negócios nesta quarta-feira, 19, investidores estrangeiros sacaram R$ 12,6 bilhões entre os dias 10 e 14 de agosto. Para encontrar um volume de fuga semanal equivalente, é preciso retornar a 2008, quando os mercados globais foram abalados pela crise do subprime nos Estados Unidos.
Eleições e cenário fiscal alimentam a incerteza
Gestores e analistas atribuem o movimento à combinação entre a proximidade das eleições e dúvidas persistentes sobre a trajetória fiscal do Brasil a partir de 2027. Werner Roger, gestor da Trígono Capital, destaca que as questões fiscal e geopolítica seguem no radar do mercado, com potencial de pressionar os juros globais e manter as taxas elevadas no país.
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“Há outros riscos, como o próprio El Niño, que tende a reacender a inflação dos alimentos e pode levar o IPCA para fora do teto da meta”, afirma Roger.
O gestor avalia que esse conjunto de fatores sustenta a Selic em patamar elevado, o que vem prejudicando a atividade econômica brasileira. Como evidência, ele menciona o aumento nos pedidos de recuperação judicial nos últimos anos, citando os casos de grandes companhias como Pão de Açúcar, Raízen e, mais recentemente, Casas Bahia.
“Os resultados financeiros das empresas tendem a ser piores neste terceiro trimestre, o que deixa o mercado arisco e faz com que o investidor estrangeiro prefira sair do país”, argumenta.
Valor em dólar é relativamente modesto, pondera especialista
Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, oferece uma perspectiva diferente sobre o volume da saída. Segundo ele, os R$ 12,6 bilhões equivalem a cerca de US$ 2,5 bilhões — cifra que, embora significativa para o mercado local, tem pouca expressividade diante do tamanho da economia americana.
“Isso assusta muito o Brasil, pois essa debandada machuca muito a Bolsa brasileira. No entanto, esse valor em dólares é muito pequeno quando comparado com o tamanho do mercado americano”, explica.
O que esperar do Ibovespa nos próximos dias?
Na própria quarta-feira, o Ibovespa avançava mais de 2% por volta das 11h20, cotado a 169.637,83 pontos — alta de 1,99%. No acumulado de 2026, a valorização era de aproximadamente 5%. Ainda assim, os especialistas consultados projetam um cenário de maior volatilidade à medida que o período eleitoral se aproxima.
Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, sustenta que a bolsa deve seguir pressionada enquanto o fluxo estrangeiro permanecer negativo. “Qualquer sinal de maior clareza no cenário político ou de melhora nas perspectivas fiscais pode reduzir o ritmo das saídas, mas, enquanto a incerteza eleitoral dominar, a tendência é de cautela e possíveis novas pressões vendedoras”, afirma.
Alta no pregão pode ser apenas um repique técnico
Sant’Anna, da Axia Investing, avalia que o avanço registrado no pregão ocorre após uma sequência de 11 sessões consecutivas de queda e não necessariamente sinaliza uma mudança de tendência. Para o especialista, o Ibovespa pode devolver parte dos ganhos acumulados ao longo do ano.
“A possibilidade de reeleição do presidente Lula desagrada o mercado pelo lado fiscal. Então, as questões políticas e fiscais devem drenar a Bolsa nos próximos dias e meses, por isso, enxergo a possibilidade de a Bolsa perder toda a alta acumulada do ano”, conclui Sant’Anna.