Enquanto o brasileiro aperta o cinto, Caixa, Petrobras, BB e BNDES abrem a torneira dos patrocínios com dinheiro público
R$ 1,6 bilhão. Esse é o valor que as quatro maiores estatais federais assinaram em contratos de patrocínio apenas em 2025. Um aumento de 52,5% em relação ao ano anterior, já descontada a inflação. São R$ 539,6 milhões a mais jorrados em acordos de patrocínio — dinheiro de empresas controladas pelo governo Lula.
A pergunta que ninguém faz é simples: qual o retorno mensurável disso tudo para o contribuinte?
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Vamos aos números, que falam por si.
A Caixa Econômica Federal lidera a farra em valores absolutos. Seus contratos de patrocínio saltaram de R$ 374,7 milhões em 2024 para R$ 652,1 milhões em 2025 — R$ 277,4 milhões a mais. A justificativa? Contratos plurianuais cujos valores são contabilizados integralmente na assinatura. Conveniente. O gasto aparece todo de uma vez, mas a explicação tenta diluir o impacto. O dinheiro, no entanto, é real.
Mas há um detalhe que merece atenção especial.
O BNDES registrou a maior explosão proporcional: seus acordos de patrocínio foram de R$ 6,5 milhões para R$ 99,3 milhões. Uma multiplicação por mais de 15 vezes. Quinze vezes. A explicação do banco é que houve uma “retomada” após paralisação entre 2020 e 2022. Retomada é uma palavra generosa para descrever um salto de 1.427%.
Agora compare: um governo que vive repetindo o mantra da responsabilidade fiscal, que precisa cortar gastos para cumprir o arcabouço fiscal, que impõe aperto ao funcionalismo e restringe investimentos em áreas essenciais — esse mesmo governo permite que suas estatais aumentem em mais de meio bilhão de reais os contratos de patrocínio em um único ano.
Não é coincidência que isso aconteça justamente nas empresas onde o governo federal indica a direção e define as prioridades estratégicas.
A Petrobras elevou seus contratos de R$ 380,1 milhões para R$ 527,7 milhões. O Banco do Brasil foi de R$ 267,4 milhões para R$ 289,2 milhões. Todas alegam que os patrocínios geram “retorno de imagem” e “impacto social”. O problema é que “retorno de imagem” é a métrica mais conveniente do universo: impossível de refutar, impossível de comprovar e absolutamente perfeita para justificar qualquer gasto.
Grande parte dos recursos, segundo o levantamento da Folha de S.Paulo, foi direcionada a iniciativas esportivas, beneficiando entidades como o Comitê Paralímpico Brasileiro e a Confederação Brasileira de Atletismo. Causas nobres? Sem dúvida. Mas nobreza da causa não dispensa escrutínio sobre o volume. E R$ 1,6 bilhão é um volume que exige muito mais do que comunicados institucionais genéricos como prestação de contas.
O padrão é conhecido. As estatais funcionam como extensões do projeto político do governo de turno. Os patrocínios são uma ferramenta poderosa de projeção de imagem — não necessariamente da empresa, mas do governo que a controla. É marketing público com carimbo corporativo. E o mais perverso: como se trata de empresas e não do Orçamento da União diretamente, o escrutínio parlamentar é infinitamente menor.
Quando se cobra austeridade do cidadão, do servidor, do aposentado — e ao mesmo tempo se permite que estatais ampliem em mais de 50% seus gastos com patrocínio —, o discurso de responsabilidade fiscal vira peça de ficção.
R$ 1,6 bilhão não compra apenas camisas de times e placas em eventos. Compra visibilidade. Compra influência. Compra silêncio. E quem paga a conta, como sempre, é quem nunca é consultado.