Delação premiada de Vorcaro: defesa acelera acordo antes que ação do PT no STF mude as regras do jogo
Uma corrida contra o tempo se instalou nos bastidores do caso Banco Master. Os advogados de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira, organizaram uma força-tarefa para finalizar e protocolar nos próximos dias a proposta de delação premiada. O motivo da urgência é preciso: uma ação ajuizada pelo PT no Supremo Tribunal Federal foi liberada para julgamento no plenário pelo ministro Alexandre de Moraes nesta semana — e pode criar obstáculos intransponíveis para o acordo.
O que está em jogo na ação movida pelo PT
Entre os pontos mais delicados da ação está a proposta de proibir que medidas como buscas e apreensões sejam autorizadas com base exclusiva em declarações de delatores. Caso o plenário aprove a medida, o impacto sobre a estratégia dos advogados de Vorcaro seria direto. O plano da defesa envolve avançar na delação premiada e, a partir das informações da colaboração, tentar um habeas corpus para libertar o banqueiro.
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Outro alvo da ação são as chamadas delações cruzadas. A defesa de Vorcaro estaria negociando uma colaboração conjunta com seu cunhado, o empresário e pastor Fabiano Zettel. O PT quer que acordos firmados em conjunto não tenham valor probatório suficiente por si só, exigindo provas adicionais para sua validação. Na prática, colaborações construídas a partir de depoimentos de pessoas com vínculos familiares ou societários — exatamente o modelo que a defesa tenta viabilizar — perderiam força.
Em que pé está a negociação da delação
Vorcaro já se encontra na segunda fase do acordo de delação premiada. No dia 19 de março, ele assinou o termo de confidencialidade com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. A assinatura aconteceu poucos dias depois de a Segunda Turma do STF ter decidido manter sua prisão.
Pela primeira vez, PF e MPF conduzem conjuntamente uma colaboração premiada — uma estratégia deliberada dos advogados para eliminar brechas que possam comprometer a credibilidade do acordo. O receio central da defesa é justamente uma rejeição. A negociação compartilhada entre as duas instituições funciona como blindagem processual.
Concluída a apresentação dos elementos e obtida a sinalização positiva dos investigadores, o acordo seguirá para homologação do ministro André Mendonça, relator do caso no STF. Não existe prazo legal definido para a formalização dos anexos — mas a urgência é concreta, porque um julgamento favorável à ação do PT antes da homologação pode fazer desmoronar o edifício jurídico que a defesa está levantando.
Coincidências que desafiam a lógica
A cronologia dos fatos levanta questões inevitáveis. O ministro Alexandre de Moraes — que viajou oito vezes em aviões ligados a Vorcaro, reuniu-se com o banqueiro em São Paulo no dia seguinte a um desses voos e nega qualquer vínculo com o ex-controlador do Master — é o mesmo que colocou para julgamento justamente a ação capaz de neutralizar a delação premiada do banqueiro.
A teia de relações construída por Vorcaro ao longo dos anos amplifica o desconforto. No Peninsula London, o ex-dono do Banco Master reuniu chefes da PF, do MP, do STF e do STJ. Pagou festas com mulheres para autoridades. Distribuiu R$ 50 milhões em honorários para escritórios de ex-presidentes, ex-ministros e dirigentes partidários. Uma rede de proteção tecida nos mais altos andares do poder brasileiro.
A engrenagem política por trás da pressa
Agora, preso e em pleno processo de negociação de uma colaboração, Vorcaro vê o partido do presidente da República tentar restringir exatamente o instrumento que ele pretende utilizar para revelar o que sabe. E o ministro que mais teria a temer o conteúdo dessas revelações é quem viabilizou a inclusão da ação na pauta do plenário.
Pode ser coincidência. Mas no Brasil de 2026, coincidências desse tamanho têm nome, sobrenome e toga.