A broca-de-tiro-polífaga já foi identificada em pelo menos sete países e pode atacar mais de 600 espécies de plantas
Um inseto do tamanho de uma semente de chia está provocando devastação silenciosa em florestas e áreas urbanas de diversos continentes. A chamada broca-de-tiro-polífaga, um tipo de besouro originário da China e do Vietnã, já foi detectado em pelo menos sete países e carrega a capacidade de infectar e matar árvores de mais de 600 espécies diferentes.
Como o besouro ataca e se reproduz
O ciclo destrutivo começa quando fêmeas do besouro perfuram orifícios da espessura de palitos de dente no tronco das árvores. Dentro dessas galerias, depositam ovos e injetam um fungo na madeira. Esse fungo desenvolve estruturas reprodutivas que servem de alimento para as larvas recém-nascidas.
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O dano letal acontece porque a perfuração compromete os canais internos responsáveis pelo transporte de água entre raízes e folhas. Essa interrupção do fluxo hídrico pode levar a planta à morte. As manchas pretas visíveis nos troncos são um sinal da presença do inseto e frequentemente indicam que a árvore já está condenada.
A capacidade reprodutiva da espécie torna o problema ainda mais grave. Basta uma única fêmea para dar início a uma infestação completa. Mesmo ovos não fertilizados podem gerar machos — com os quais a própria fêmea se acasala posteriormente.
Por que a broca-de-tiro-polífaga é tão perigosa
O diferencial mais preocupante dessa espécie está na chamada “polifagia”, conceito presente no próprio nome do inseto. Enquanto a maioria dos insetos invasores é especializada em atacar um tipo específico de planta, a broca-de-tiro-polífaga consegue se reproduzir, se alimentar e, eventualmente, destruir pelo menos 600 espécies da flora global.
Um estudo publicado no Journal of Pest Science reuniu uma equipe internacional de cientistas com o objetivo de mapear e prever a disseminação do besouro por meio de análise genética. A pesquisa utilizou sequenciamento de DNA para identificar com precisão qual espécie estava presente em cada região afetada.
Os resultados revelaram que a broca polífaga tolera uma faixa mais ampla de temperaturas e suporta climas mais secos do que espécies similares. Além disso, aparenta ser um colonizador significativamente mais agressivo.
Do sudeste asiático para o mundo
Apesar de ter origem na China e no Vietnã, o besouro chegou à África do Sul por volta de 2012, provavelmente escondido em pallets de madeira, caixotes de transporte ou plantas importadas. Com dimensões minúsculas, o inseto viaja com facilidade sem ser detectado.
Angela Mech, entomologista florestal da Universidade do Maine, destaca que a descoberta da presença do inseto em múltiplos continentes reforça o quanto é complicado barrar o avanço de espécies invasoras dessa natureza.
David Richardson, biólogo especializado em invasões biológicas da Universidade de Stellenbosch (SU), sintetiza a dimensão do problema: “Estamos perdendo uma grande parte da copa das florestas urbanas”.
Previsão de expansão e impacto nos ecossistemas
Segundo as projeções do estudo, a espécie deverá se espalhar por partes do Mediterrâneo, pelo sudeste dos Estados Unidos, por Madagascar e por quase toda a costa leste da Austrália. Caso não seja controlado, o inseto pode alterar a estrutura de ecossistemas inteiros, transformando paisagens locais de forma permanente.
François Roets, ecólogo da Universidade de Stellenbosch, acredita que as consequências de longo prazo dessas invasões florestais serão “substanciais”.
Ainda não há consenso sobre quais são os alvos preferidos do besouro. Há indícios de que ele tenha predileção por árvores frutíferas e “ornamentais” — aquelas que decoram parques, ruas e jardins. Outras hipóteses sugerem que a vulnerabilidade esteja relacionada à saúde das plantas, que tende a ser pior em ambientes urbanos. Os danos, porém, não se restringem às cidades: na África do Sul, onde a espécie está estabelecida há mais tempo, os ataques já alcançaram florestas nativas.
Regiões afetadas pelo besouro invasor
- África do Sul: a espécie chegou em 2012, devastou árvores urbanas entre Stellenbosch e Cidade do Cabo, e agora está se estabelecendo fortemente e matando árvores em florestas nativas sul-africanas.
- Estados Unidos: a praga avançou pelo Sul da Califórnia e migrou para a região de San Jose. Há expectativa de que alcance plantações agrícolas do fértil Vale Central da Califórnia.
- Austrália: foi detectado na cidade de Perth em 2021, o que motivou um investimento de R$200 milhões (40 milhões de dólares) pelo governo para tentar barrar o avanço. Ainda assim, a situação não foi totalmente controlada.
- Brasil: a broca foi detectada pela primeira vez em 2020, dentro de uma área de 3.500 quilômetros da costa da América do Sul. Árvores decorativas importadas têm sido o principal alvo na região.

Busca por soluções biológicas
Em paralelo ao mapeamento genético, pesquisadores investigam alternativas para conter a praga. Paul Rugman-Jones, entomologista da Universidade da Califórnia em Riverside, conduz estudos para avaliar se vespas parasitoides — inimigas naturais desse besouro — podem ser utilizadas como forma de controle biológico na Califórnia.
